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22 de jun. de 2014

O quanto eu lhe amo...

Os holofotes tinham mirado nela. Eu estava na platéia e os meus olhos a encaravam com tanta atenção quanto os das pessoas ao redor. Ela estava linda como sempre, mais linda do que qualquer outra mulher ali, eu tinha certeza. 

A música começou a tocar. Ela segurou o microfone com força e procurou alguém na platéia. Pousou os olhos em mim e sorriu. Eu não deveria, mas sorri de volta.

Aproveitei cada segundo antes dela começar a cantar para pensar em cada segundo das semanas anteriores. Tínhamos brigado e a distância me matava. Não gostava nenhum pouco de vê-la triste, mas acho que ela deveria ter pensado um pouco em mim também.

Desviei o olhar e sentir sua doce voz abrindo caminho pelas minhas orelhas.

Eu... Esse era sempre o meu problema
Minha vida passei pensando em mim.
Meu coração não era forte o suficiente
Para deixar de lado tudo o que passou.
Eu continuava sofrendo com as mesmas feridas
Não conseguia esquecê-las.

Como eu queria que não fosse verdade. Você em cima do palco, cantando aquela música que eu conhecia tão bem e combinava tão bem com nós dois... Como eu queria dizer que um terço daquilo que escrevi para você não fosse verdade.

Eu... Deveria parar um pouco de pensar em mim.
Deveria deixar de sofrer pelo passado
E ter medo de achar um novo futuro.
Eu... Deveria seguir em frente
E tentar algo novo
Mas esse nunca foi meu forte.

Nós dois sabíamos bem como era difícil deixar o passado e arrumar um novo rumo para a vida. Como era sempre tão difícil? Como podíamos dar um passo a frente se nós dois queríamos voltar ao passado?

Um dia eu vou me esquecer ...
Toda aquela paixão inútil que me fez sofrer
Não irá passar mais em minha mente
Tudo o que um dia me fez chorar
Vai me ajudar a ser mais forte.
Eu vou olhar para frente...

Voltei os olhos novamente para ela e percebi que ela me encarava com muito mais vontade. Eu sabia que cantava para mim, cantava para nós dois. Sempre soubemos daquilo, um dia teríamos que deixar nosso passado e descobrir uma nova trilha para o futuro. 

Eu via lágrimas em seus olhos, mas ela se mantinha firme, sua voz não chegava nem a tremer.

Eu... Não conseguia lhe ver ao meu lado
Mesmo você estando sempre lá
Eu não conseguia parar de olhar para trás
Enquanto você queria me puxar para frente
Eu simplesmente não conseguia ir.

Eu tinha parado naquela parte, não esperava que ela continuasse, mas ela acrescentou suas estrofes às minhas.

Eu sabia que você tinha as mesmas dores,
Sabia que sofria tanto quanto eu,
Sabia que só continuaríamos se fosse juntos,
Mas eu não conseguia parar de pensar em mim
E por isso peço desculpas.

Eu... Queria ter agarrado sua mão
Quando ainda podia.
Queria lhe guiar como você me guiava.
Queria lhe fazer feliz o tanto que me fez
Mas eu não conseguia.

Eu... Só conseguia pensar em mim
Mesmo você estando lá me esperando
Para seguir seu caminho.
Seguir nós dois juntos...
Mas eu só pensava em mim.

Desculpa todo o sofrimento que lhe causei
Desculpa tudo o que deixei passar
Desculpa não ter lhe ajudado
Queria poder fazer tudo isso agora
Mas eu sei que meus erros
Lhe afastaram de mais.

Um dia eu vou me esquecer ...
Toda aquela paixão inútil que me fez sofrer
Não irá passar mais em minha mente
Tudo o que um dia me fez chorar
Vai me ajudar a ser mais forte.
Eu vou olhar para frente...

E vou estar lá junto a você
Eu estarei lá a cada segundo
Para lhe dizer em todos eles
O quanto eu lhe amo.

Ela não conseguiu mais segurar as lágrimas, nem eu conseguia impedir as minhas de encharcar minha face. Alarguei o sorriso e sussurrei lentamente um "eu te amo". Ela sorriu para mim. Agradeceu as palmas da platéia. Saiu secando as lágrimas.

O quanto eu lhe amo...

10 de mai. de 2014

Lenda - O Sol e a Lua

        Boa tarde gente! 
     Vim aqui pra postar uma história que eu li a muuuuito tempo e nem lembrava direito mais. Encontrei ela de novo por aqui e é uma das lendas mais bonitas (e deprimentes) que eu conheço. He he Então estou postando aqui pra quem achar interessante.

       Quando o Sol e a Lua se encontraram pela primeira vez, se apaixonaram perdidamente e
a partir daí começaram a viver um grande amor. Acontece que o mundo ainda não existia e no dia que Deus resolveu criá-lo, deu-lhes então toque final ...o brilho !
       Ficou decidido também que o Sol iluminaria o dia e que a Lua iluminaria a noite, sendo assim, seriam obrigados a viverem separados. Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam. A Lua foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado, ela foi se tornando solitária. O Sol por sua vez havia ganhado um título de nobreza "ASTRO REI", mas isso também não o fez feliz.
       Deus então chamou-os e explicou-lhes: Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio. Você Lua , iluminará as noites frias e quentes, encantará os enamorados. Quanto a você Sol , será o mais importante dos astros, iluminará a terra durante o dia, fornecendo calor aos seres vivos.
       A Lua entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio...já o Sol ao vê-la sofrer tanto decidiu que não poderia deixar-se abater pois teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus. No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a ELE:
      "Senhor, ajude a Lua . Ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão!"
       E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela. A Lua sempre que está muito triste recorre as estrelas que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem. Hoje eles vivem assim....separados, o Sol finge que é feliz, a Lua não consegue esconder
sua tristeza.
       O Sol ainda esquenta uma grande paixão pela Lua . Ela, ainda vive na escuridão da saudade.
Dizem que a ordem de Deus era que a Lua deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela
não consegue isso.... porque ela é mulher, e uma mulher tem fases. Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz é minguante e quando minguante nem sequer é possível ver o seu brilho.
       Lua  e Sol seguem seu destino, ele solitário, mas forte. Ela acompanhada das estrelas, mas fraca. Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível. Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível. Nem mesmo o da Lua e o do Sol ... e foi aí então que ele criou o eclipse.
       Hoje Sol e Lua vivem da espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer. Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o Sol encobriu a Lua é porque ele deitou-se sobre ela e começaram a se amar. É ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse.
       O brilho desta paixão é tão grande que é aconselhado não olhar para o céu nesse momento. Seus olhos podem cegar de ver tanto amor.

Autor Desconhecido

Enki
~ Vejam algumas histórias que eu escrevo em http://fanfiction.com.br/u/382422/ ~

11 de set. de 2013

Crônica sem título

Eu quero agradecer à minha amiga Camila que me deu a Ideia =) espero que tenha ficado legal.

Passava-se das duas da tarde. Felippe estava sentado em um banco escolhido a esmo, lia um livro grosso de aparência velha e surrada. Seu cabelo negro balançava apaticamente por causa do vento leve. Seus olhos castanhos devoravam palavra por palavra com um prazer imenso. A boca de lábios rosados mantinha-se entre-aberta, soltando de vez em quando algumas palavras que lia.
Deixou suas páginas amarelas por alguns segundos para arrumar o cabelo. Rodou os olhos curiosos pelo ambiente ao ar livre e deitou o olhar em cima de uma pessoa que passava por ali naquele instante. Uma garota.
Seu nome era Juliana, tinha os cabelos negros alisados até a altura dos seios, os olhos amendoados por trás dos óculos de armação quadrada, a pele morena e o corpo esguio. Bonita seria a palavra que ele descreveria ela a alguns dias atrás, mas naquele instante ele só conseguiu pensar na noite do dia anterior.
A noite de domingo tinha sido um tanto quanto agitada, mais agitada do que qualquer noite na vida dele. Por mais que parecesse calado e tímido as vezes, Felippe adorava festas e diversão. Adorava sair com os colegas e aproveitar as noites. Uma noite em cada lugar. E fora em uma dessas noites de diversão que tinha conhecido Juliana, na noite anterior para ser mais precisa.
A noite... Não lembrava muito daquela noite, apenas flashs do ocorrido. Tinha ido com seus amigos, como de costume. Não estava muito interessado em encontrar garotas, mas mudou de ideia quando avistou Juliana.
Faziam o mesmo curso na faculdade. Nunca tinham conversado. Nunca tinham sequer passado um ao lado do outro. Mas seus olhares se cruzaram sob a luz rarefeita do lugar.
Naquela noite ela estava diferente, menos recatada do que de costume. Vestia um vestido não muito curto, não muito longo, um pouco a cima dos joelhos. Seus cabelos estavam cacheados àquela noite, arrumados com extremo zelo. No rosto, uma maquiagem leve que acentuava os lábios grossos e o olhar profundo.
O que Felippe sentiu nem ele sabe, só sabia que queria provar daqueles lábios àquela noite. A primeira coisa que providenciou foi duas taças de plástico da primeira bebida que achou pelo caminho. Arrumou o cabelo e estufou o peito. Foi se aproximando da moça.
-Boa noite. -Disse sorrindo bobamente.
-Ah...-Ela se assustou com o rapaz que tinha surgido aparentemente do nada. -Boa noite.
-Trouxe-lhe uma bebida... Gostaria de beber comigo?
Juliana ficou encarando-o por alguns segundos antes de abraçar a taça com os dedos morenos. Sorriu timidamente e concordou com a cabeça.
-Você tem aula comigo, não é mesmo? -Ela perguntou baixinho.
-Sim... -Respondeu ele entre dois goles. -Acho que quase todas. Não tive tempo de me apresentar ainda... Meu nome é Felippe.
-Sou Juliana. -Fez menção de erguer a mão para cumprimentá-lo, mas desistiu. -Gosta de festas assim... -Perguntou depois de alguns minutos de silêncio.
-Gosto um pouco. -Foi a vez dele responder baixo. -E você?
-Um pouco também. -Mais alguns segundos de silêncio. Deixou a taça sobre o balcão do bar.-Quer dançar?-Apontou a multidão que se aglomerava perto do DJ.
-Quero sim. -Tomou isso como a deixa que esperava. Puxou-a pela mão e foi para junto dos outros.
Começaram a dançar um pouco afastados. Foram se aproximando gradativamente quando o olhar de ambos parecia concordar. Ela dançando twerk, ele tentava acompanha-la com uma dança improvisada. Não demorou muito para Felippe se cansar de dançar daquela maneira ridícula e segura-la pela cintura, colando seus corpos totalmente. Ela não o repreendeu, mas ficou intensamente vermelha, tão intensamente que até sob aquela luz ele conseguiu ver.
Então as mãos dele começaram a trabalhar. A princípio timidamente, mas depois intensificando os movimentos. Já tinha se afastado da pista de dança, mas suas mãos ainda estavam no corpo dela e as dela tinham partido para o dele.
-Eu... -Ela sussurrou. -Vamos beber mais um pouco?
-Ok... -Suspirou.
Beberam. Beberam não mais um pouco, beberam tanto que nem ela nem ele estavam sóbrios quando resolveram sair dali. Quando foram a um hotel, nem quando estavam um sobre o outro sentindo o calor de suas peles...
Ele olhou novamente a garota que passava. Abaixou a cabeça e voltou a ler seu livro. 



~Candy

7 de ago. de 2013

Rascunho

Hilária se apoiou no parapeito da janela. Estava chovendo forte na cidadezinha de modo que o vidro estava embaçado e era difícil de enxergar alguma coisa. Mas ela conseguiu ver a figura masculina se aproximando.

A garota saiu de seu ponto de observação, rodou as rodas da cadeira o mais rápido que conseguia e alcançou a porta antes que alguém a impedisse.

-Papai! -Ela gritou. Saiu pela chuva não se importando se as rodas de sua cadeira estava suja de lama ou se a chuva estragava seu vestido esverdeado ou seu cabelo alaranjado.

O homem parou de andar. Abaixou a cabeça e deixou as pesadas gotas descerem pela sua face. Não era a chuva. Eram lágrimas. Mas por que ele chorava? Hilária não sabia.

A menina acelerou. "Papai." Ela falava "Papai, o que foi?"

-Não se aproxime. -Ele falou alto.

-Papai? O que eu fiz, papai?

-Não me chame de pai! Eu não sou seu pai!

-Papai! -Ela agora chorava. -Não fale isso papai. -Por não notar um monte de lama e por estar muito rápida, as rodas da cadeira ficaram presas e a garota foi arremessada para frente.

Caiu pesadamente sobre a lama. Não se importava se estava toda suja. Não se importava se não ia conseguir se levantar. "Papai!" Ela gritou com força. O homem passou por ela e seguiu em direção a casa.

3 de mai. de 2013

Das Fabulas de Utopia - Campos Devastados


Existiam as estrelas e elas cantavam o silêncio. Porque o silêncio mórbido e eterno é tudo o que as estrelas cantam. E abaixo delas, desertos de grama, amareladas e secas, se firmavam nas expansões. Limitados pelos mares a leste e as montanhas a oeste, os campos se se estendiam infinitos nas outras direções. Existiam os mares verdes e doces e, quando suas ondas alcançavam as praias de areia dourada, formavam espumas de sabão sobre suas águas, e deixavam seus rastros de pegadas na terra. Existiam as montanhas do outro lado e elas se chacoalhavam para retirar o excesso de neve que a atmosfera insistia em formar para cobri-las. Assim, torrões de sal desciam constantemente as encostas pedregosas das montanhas e impediam qualquer formação vegetal ao redor delas.
Existiam também as fuinhas que sempre se organizavam em fila por quilômetros até o horizonte, e erguiam suas mãos paras estrelas e ficavam balançando-se de um lado para outro, como os morto-vivos balançam de um lado para outro lentamente enquanto andam. Porque as fuinhas adoram as estrelas e gostam do silêncio eterno que elas produzem. Existiam as rosas vermelhas que se alongavam por metros e metros nas alturas a fim de alcançar os céus. Porque todos sabem que as florestas de rosas são apaixonadas pelo Sol e querem roubá-lo de sua dança com a Lua por pura inveja. Existem os cisnes viajantes que voam para o norte toda manhã e voltam pela noite. E existe o Sol e a Lua dançando seu pas de deux a cada ciclo celeste.
E esses são os Campos Devastados, porque devastados eles sempre foram e devastados irão continuar a eternidade. Há quem não acredita na existência de tais campos, uma vez que o universo distorce em seus arredores e o tempo flui inconstante. As plantas empalidecem no inverno e amarelam no outono e completam ciclos vitais a cada dia. As águas dos rios param na terra para que as nuvens avancem rápidas e leves no céu. E os cascalhos do fundo sempre rolam terra acima nas cachoeiras. O som das baleias ecoa por quilômetros sendo carregado constantemente por nada. E os ventos param, tanto quanto as brisas se interrompem. E as estrelas se movem como a canção de aviões silenciosos. E esses são os Campos Devastados.
Um velho ancião acompanhado de um casal de crianças chegou ao vale e, uma vez lá, o ancião sentou com as duas crianças a sua frente e assim declarou. “Tudo que há aqui será de vocês e estará sob seus domínios para que façam o que bem entenderem. Cacem as fuinhas para que tenham a carne para comer e bebam das águas dos rios quando quiserem, pois elas são puras como todo o resto que há nesse lugar. Lavem-se no mar para que o sabão retire os resquícios humanos que contaminariam esse lugar e divirtam-se como quiserem por aqui. Mas nunca cheguem perto dos cisnes, porque a infelicidade os acompanha onde quer que eles queiram ir. Pois estes são os Campos Devastados e aqui a única lei é o equilíbrio.”
Dito isso, o ancião se pôs a meditar e as duas crianças aproveitaram para se divertir. Elas brincaram e brigaram várias vezes até aprender a conviver juntas com o tempo. Elas cresceram e aprenderam a se organizar, dividindo suas tarefas quando era necessário, apesar de que fizessem quase tudo juntas. E juntas cresciam, e juntas se divertiam, e juntas viviam.
Por setes mil ciclos celestes, o ancião meditou e quando finalmente terminou sua meditação encontrou o jovem casal já adulto e amadurecido. Percebendo que aqueles dois já conseguiam cuidar de si mesmos ele deixou os Campos Devastados para seguir seu rumo enquanto o jovem casal percebia a cada dia mais forte a paixão florescer entre eles. Sozinhos e sem precisar se incomodar com a presença o ancião, eles se sentiram livres para viver o amor que possuíam, sem vergonha dos sentimentos, sem medo de errar, sem medo de incomodar a outros.
E em um entardecer qualquer, como o de qualquer outro dia, eles deitaram na grama do vale e olharam para cima a fim de ver os últimos tons do manto vermelho do sol darem lugar a cores mais escuras. “Olhe as estrelas” ele disse para ela “Veja como elas dançam, e brilham, e dançam, correndo em destaque nas sombras da noite.”
“Eu vejo” ela respondeu “vejo como elas caminham solitárias por este céu noturno e tenho pena das estrelas, tenho pena por não terem alguém que as acompanhe, e tenho pena por serem a solidão”.
“Então finja que elas são um sonho. Finja que o mundo é tão simples quanto esse lugar em que vivemos. Finja que não há tristeza ou mágoa e que tudo de ruim terminará como estrelas cadentes que cairão nesse campo para fazermos companhia a elas. Então eu lhe pergunto: há algum outro desejo que você gostaria de realizar agora mesmo?”
“Meu único desejo seria viver ao seu lado como as estrelas caem no céu.”
E naquela noite eles foram o casal mais feliz e realizado que já existiu, pois eles se amavam. E seu amor era tão grande e tão forte que faria estrelas caírem do céu quando assim eles sonhassem. Quando o ciclo celeste recomeçou e o Sol reapareceu, o homem acordou e encontrou um belo e elegante cisne a alguns metros de distância. E ele lembrava que não devia se aproximar dos cisnes, e não lembrava o porquê. E vendo aquele animal negro, tão elegante, tão diferente, tão belo, logo pensou em usar suas penas para fazer algum presente para sua amada. E quis caçar o cisne, como conseguia faze muito bem com qualquer outro animal. E coseguiu, retirando cinco penas das quais pensou em fazer alguma coisa para sua mulher. E ele não sabia que as penas de cisnes continham venenos mortais que se espalham no menor contato, pois os cisnes durante o dia sempre desaparecem no norte e reaparecem quando a noite chega e ele dorme.     Quando a mulher acordou, encontrou seu amado caído como as estrelas, e ele ainda segurava as penas para ela.
E não existia mais os desertos de grama, nem os mares a leste ou as montanhas a oeste. E não existiam mais as fuinhas E não existiam mais florestas de as rosas vermelhas. E não existia mais o Sol e a Lua. E não existia mais nada.
E tudo que existia eram as estrelas, e elas cantavam em silêncio. Porque o silêncio mórbido e eterno é tudo o que as estrelas cantam. Porque esses são os Campos Devastados, e porque devastados eles sempre foram, e porque devastados irão continuar a eternidade.

Enki

30 de abr. de 2013

O Ovo e a Galinha


         Era uma vez uma galinha chamada Delfina. Isso mesmo. Galinha, a grandiosa ave de rapina Gallus gallus domesticus, e seu nome era Delfina. E este é o relato da breve história de vida que tive com ela. Relato, não se engane, pois as palavras que aqui escrevo são tão verídicas quanto eu, você ou Delfina. Pois tudo isso realmente aconteceu alguns anos atrás, embora eu só venha a escrever agora por estar imbuído, neste mesmo momento, de grande saudade da boa companheira quer me foi, Delfina.
         Certa noite, passei na cozinha de minha casa, pois era atormentado pelos piores desejos carnais que o homem já possuiu. Desejo daqueles que embrulha e revira o estomago e nos devora por dentro e não passa. Raramente passa. Na verdade, já era minha quarta ou quinta jornada em direção a cozinha, porque tal desejo, tão insaciável, já me havia acometido horas atrás. E em nenhuma das peripécias anteriores á cozinha resolveu meu problema.
          Primeiro o armário. Vazio. O trágico e infeliz vazio do nada, que assombrou-me naquele momento. Depois a dispensa outra vez. Vazio. Se existe alguma palavra que pode expressar o que um reles humano rente ao se deparar com aquele vazio ela seria Desolação. E, quando as esperanças escorriam como água entre os dedos, veio-me a mente a mais brilhante das ideias. A geladeira.
         Tolo. Por que haveria de haver alguma coisa na geladeira? Nunca nos incontáveis dias de minha vida eu encontrara algo de realmente valioso por lá. Mas tolo mesmo era eu por não ter pensado nela antes, pois, ao abrir as portas, com meu coração a boca, encontrei o maior dos tesouros, aquele que me saciaria todos os desejos mais profundos.
         Havia arroz, e também havia feijão. Aqueles deliciosos pratos de arroz branco e feijão carioca. Contudo nada é completo, nem mesmo a felicidade. E, para a minha desgraça, não havia carne. Em que casa não existe carne? A mesma em que não se encontra quase nenhuma comida.
         Contei o caso para um grande amigo mais tarde e ele compreendeu meu sofrimento. “Intriga-me os motivos de não haver fritado nem um ovo para acompanhá-lo.” Ele comentou. E tudo que respondi foi: “Feliz aqueles que possuem um mísero e único ovo para essas horas, meu caro.”
         No primeiro dia que se seguiu ao trágico evento, ocorreram as compras, e finalmente haveria do que comer em casa. No segundo dia, a noite foi mais feliz e até dormir bem eu pude. No terceiro dia, reencontrei meu amigo pessoalmente e ele, dizendo o quanto ficou tocado com minhas dificuldades, trouxe-me um presente. Muito estranho aquele embrulho de formas retangulares, lembro-me bem até hoje de ficar curioso para saber o que havia ali dentro.
         Rasguei o embrulho e retirei a tampa da caixa para enfim me deparar com uma galinha. Delfina era seu nome. Delfina era ave. Delfina era a Ave. Ave Delfina. “Crie a galinha e sempre terá o ovo para comer, mesmo que o resto lhe falte a mesa.” Exclamou meu amigo. E seguindo seu conselho eu criei a Delfina. Criei, sim senhor, por quase um mês me felicitei com companhia enquanto aproveitava de seus nada menos que deliciosos ovos. Bons dias aqueles, posso dizer.
         Em quatro semanas seguintes ao inicio de nossa convivência, no entanto as compras haviam acabado e os ovos de Delfina eram tudo o que ainda me mantinha nessa vida. Grato sou pela galinha, pois não apenas boa  companheira, ela era também o elixir que me trazia a vida. Mas as criaturas ferozes e ignóbeis que habitam minha casa e a que chamo de família enjoaram dos ovos e quiseram tirar proveito da pobre e doce Delfina que sempre fora tão boa com eles. Assim, assassinaram e devoraram a galinha. Abismado, quando eu descobri a atrocidade canibal e cruel de seus atos, já era tarde demais.
         Era uma vez uma galinha chamada Delfina. Era porque não é mais. E este é o relato da breve história de vida que tive com ela. Breve vida a dela, não se engane, pois em casas de famintos não dura a boa comida. Mas grande é a saudade da boa companheira quer me foi, Delfina.

Enki



Um agradecimento especial para o meu irmão de coração J.P.
 que trouxe as ideias das quais sairam esse conto!
 Obrigado por tudo, cara!

28 de abr. de 2013

Dos Contos de Carceri - O Olho

    Era uma sala cinza. A nauseante sala cinza-ferro que enjoava toda vez que se olhava para as paredes. Um cubo, frio, escuro, geometricamente composto, paredes rústicas e vazias, um quarto vazio, chão, teto e paredes. É o quarto-sala vazio que habito. Carceri.
      Vivo? Não sei. Talvez. Ou não. Não há lembranças de mais nada fora aquelas extensões metálicas. Conheço existências. Sei diferenciar cores e luzes, tenho ideia do que são plantas, sol, ar, mas creio que nunca vi nada disso. Não sei nem se exite algo além do meu ego e dessa sala, pois nunca vi ou ouvi nada. Existe um pedaço da parede que sai a cada tempos.
      A cada tempos porque não sei dizer quanto tempo passa desde que a parede sai da ultima vez até a próxima. A cada tempos por que a contagem deles se torna insignificante perto da eternidade a que vivo assim. E a parede também não abre inteira, nem toda, mas um pequeno retângulo dela que se projeta para fora. Ainda assim ela sai a cada tempos e lá encontro matérias esquisitas e viciosas.Um líquido que me ajuda quando penso ficar tão sólido quanto o ferro que compõe as paredes. Tão seco e áspero quanto a sala cinzenta. E também tem coisas sem gosto que me devolvem as forças até a parede abrir novamente. Que me trazem pensamentos e que me erguem do chão embora sejam insuportavelmente enjoativas.
      E a cada tempos também há um olho. Olho maldito que me observa por mais tempos. Um circulo brilhante que solta fachos fortes de luz, escarlate como sangue, e me impedem de dormir e me observa sem parar. Observa, observa observa e observa. Saiba que também o observo olho. Não tenho força para manter a mesma persistência que você, mas eu o observo e que isso fique bem claro. Do momento em que acordo ao que apago, sei que você me observa e assim eu também o observo. Olho insuportável.
       Grito, berro, deliro e o amaldiçoo, pois não sei o que você é mas sei que me observa. Sei que me escuta, sei que me segue, sei que você sabe o quanto me atormenta, que sabe a loucura a que me imbui. Olho que me observa. Você me vê. Todo, completo, nu você me vê. Tudo que eu sinto, tudo que eu passo, tudo que eu faço, você vê. Vê minha raiva, vê minha ira, vê minha cólera e ri em silêncio pois sabe que tudo isso é por sua culpa. E tudo que eu vejo é você me vendo. Olho do inferno, eu também o observo.
       Observo você me observando, olho maníaco.

Enki

22 de jan. de 2013

Sober Dreams

        Foi quando acordei e olhei para o lado que percebi. Não era a primeira vez que pensava isso e nem será a última, nem aquela vez foi mais especial que as outras, mas foi aquela a vez em que tive certeza de que essa sensação nunca mais me deixaria. A vez em que olhei para o lado e não vi ninguém. Porque não há ninguém. Nunca vai haver ninguém. Ninguém além de mim.
        Foi quando me lembrei das pessoas que são mais importantes para mim. Aqueles que também vao acordar em sua cama e pegar o celular para falar com outras pessoas. Que vão ligar para outras no meio da noite apenas para dizer que pensam nelas. Que vão poder dizer o quanto sentem saudade por não estar com essa pessoa naquele exato momento sem se preocupar em incomodar a outra com tanta atenção. Que vão poder falar qualquer coisa para alguém sem se envergonhar. E que vão acordar amanhã, olhar para o lado, ver outra pessoa e ser muito feliz só por isso.
        Eu me alegro. Em pensar que as pessoas que são tão importantes para mim vão ser tão felizes dessa forma. Alegro por saber que elas não terão esses pensamentos que tenho. Porque ninguém é igual a mim. Eu não posso viver isso. É verdade que não quero, mas não quero por que sei que me faria mal. Sempre machuquei a quem me aproximo demais. E eu também me machuco. Espero ou exijo demais dos outros. Essa não é vida para mim. Não é a vida que mereço por mais que eu a quisesse.
        Nasci para viver sozinho. E isso é fato. Minha natureza imutável. Gosto da minha solidão e me irrito se invadem meu espaço quando não quero. Irrito demais ao ponto de fazer as coisas mais idiotas do mundo. E ficar sofrendo mais ainda em arrependimentos depois. Mas é essa mesma solidão que todo dia me lembra da saudade, essa mesma solidão que detesto quando interrompem. Os silêncios que grintam a verdade em minha cabeça. E os vazios que encaro ao meu redor. Que existem dentro de mim.
        Ainda sou jovem e muitos diriam que isso é apenas uma carência passageira. Não é a primeira vez que penso isso. E nem será a última. Porque esse sou eu. Com a mente sempre a frete do tempo presente. Apesar de novo, na minha cabeça há uma pessoa quase da segunda idade.
        E naquela manhã eu acordei. Mas não queria. Continuei deitado e esperei o sono voltar. Dormi por mais duas horas. Levantei e já era tarde. Tomei o café da manhã. Li. Escutei algumas musicas. Vi alguns filmes. Ainda é verão e estou de férias. Sem muito para me ocupar fora a constante solidão. Ficou de noite. Fui dormir. Para amanhã acordar e olhar para o lado mais uma vez.

Enki

8 de jul. de 2011

Sangue do amor

Naquela manhã, havia um rapaz sentado em um banco de uma praça, com expressão de nervosismo no rosto. Levantava, andava, passava mão na cabeça e voltava a se sentava.

Esse rapaz segurava um papel que de vez em quando o lia. Uma garota se aproximou dele.

-Amor, eu consegui um emprego em outro estado e aceitei. - Ele disse.

-Mas não posso abandonar meus pais. Papai está tetraplégico e mamãe ganha pouco para nos sustentar. Não ganho bem e em breve sairei do trabalho por causa da gravidez. Não dá para irmos.

-Amor, a gente não vai.

-Mas disse que aceitou.

-Exatamente. Nós não vamos, eu vou.

-E como eu fico? - A moça caiu em pranto.

-Vou trabalhar lá porque ganho mais e assim posso garantir um futuro para o nosso filho. - Agora ele também chorava.

-Podemos criar nosso filho com você aqui.

-Eu não quero vê-lo passar fome, por isso eu vou. - E mostrou nossa passagem.

-Não vá, por favor, fique. - Abraçavam-se e choravam.

-Prometo que virei sempre que possível e voltarei para o lado de vocês o mais rápido que eu puder. - Ele a abraçava como se a protegesse de alguma coisa.

Naquele instante, dois carros corriam em alta velocidade, um da polícia perseguindo o outro e trocavam tiros. Aquele jovem casal foi baleado e agora os bombeiros cobrem o pobre casal falecido.


Niko

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