28 de abr de 2013

Dos Contos de Carceri - O Olho

    Era uma sala cinza. A nauseante sala cinza-ferro que enjoava toda vez que se olhava para as paredes. Um cubo, frio, escuro, geometricamente composto, paredes rústicas e vazias, um quarto vazio, chão, teto e paredes. É o quarto-sala vazio que habito. Carceri.
      Vivo? Não sei. Talvez. Ou não. Não há lembranças de mais nada fora aquelas extensões metálicas. Conheço existências. Sei diferenciar cores e luzes, tenho ideia do que são plantas, sol, ar, mas creio que nunca vi nada disso. Não sei nem se exite algo além do meu ego e dessa sala, pois nunca vi ou ouvi nada. Existe um pedaço da parede que sai a cada tempos.
      A cada tempos porque não sei dizer quanto tempo passa desde que a parede sai da ultima vez até a próxima. A cada tempos por que a contagem deles se torna insignificante perto da eternidade a que vivo assim. E a parede também não abre inteira, nem toda, mas um pequeno retângulo dela que se projeta para fora. Ainda assim ela sai a cada tempos e lá encontro matérias esquisitas e viciosas.Um líquido que me ajuda quando penso ficar tão sólido quanto o ferro que compõe as paredes. Tão seco e áspero quanto a sala cinzenta. E também tem coisas sem gosto que me devolvem as forças até a parede abrir novamente. Que me trazem pensamentos e que me erguem do chão embora sejam insuportavelmente enjoativas.
      E a cada tempos também há um olho. Olho maldito que me observa por mais tempos. Um circulo brilhante que solta fachos fortes de luz, escarlate como sangue, e me impedem de dormir e me observa sem parar. Observa, observa observa e observa. Saiba que também o observo olho. Não tenho força para manter a mesma persistência que você, mas eu o observo e que isso fique bem claro. Do momento em que acordo ao que apago, sei que você me observa e assim eu também o observo. Olho insuportável.
       Grito, berro, deliro e o amaldiçoo, pois não sei o que você é mas sei que me observa. Sei que me escuta, sei que me segue, sei que você sabe o quanto me atormenta, que sabe a loucura a que me imbui. Olho que me observa. Você me vê. Todo, completo, nu você me vê. Tudo que eu sinto, tudo que eu passo, tudo que eu faço, você vê. Vê minha raiva, vê minha ira, vê minha cólera e ri em silêncio pois sabe que tudo isso é por sua culpa. E tudo que eu vejo é você me vendo. Olho do inferno, eu também o observo.
       Observo você me observando, olho maníaco.

Enki

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